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House: O sucesso pela continuidade

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A competência de Pablo Villaça (@pablovillaca)do Cinema em Cena me trouxe a conhecer esse maravilhoso post sobre a série médica House. Ao acompanhar os episódios, que já estão na reta final da 5ª temporada faz-se um balanço de toda a série: a fórmula é a mesma.

house_m.d.

E qual é essa fórmula ?

Exemplificando:

“Dois adultos brincam com uma criança. Todos estão felizes. Subitamente, o pai começa a tossir descontroladamente. Ele fica rubro enquanto a esposa tenta ajudá-lo, desesperada. Finalmente, ele expele um pedaço de pão da garganta e respira aliviado. Nesse instante, o filho de 5 anos do casal desmaia e começa a ter convulsões.

Embora nunca tenha tido qualquer problema de saúde, o menino agora se encontra à beira da morte e alguém tenta fazer House se interessar pelo caso.

– A ficha diz que ele é diabético. Caso resolvido. Que tédio. – diz House.

– O nível de glicose da criança está normal há horas.

– Tirem a insulina e isso mudará.

– Mas House… ele não recebeu insulina nas últimas 10 horas…

House ergue os olhos. Foi fisgado.

– Diagnóstico diferencial, pessoal.

– Sarcoidose.

– Ele não está com febre.

– Linfoma.

– Os leucócitos estão normais.

– Lúpus.

– O ANA deu negativo.

– Imaginem que o corpo é uma pedreira. Algumas rochas são partidas por dinamite e pedregulhos se espalham por todo o lado. Um buraco foi aberto, mas as partículas agora estão no ar. Entenderam a metáfora?

– Síndrome de Villaça-Ebert!

– Mas só ocorreram 7 casos em toda a história da Humanidade!

– Iniciem o tratamento com kaeloxina e mertenato de zaninose.

O paciente melhora.

– Acertamos.

O paciente piora.

– Diagnóstico diferencial, pessoal.

– Sarcoidose.

– Linfoma.

– Lúpus.

– Mas os exames deram negativo.

– Talvez eles estejam errados.

– Façam uma punção lombar, uma tomografia e o teste do pezinho.

– Todos negativos. Você estava errado, House.

O protagonista faz piadas racistas sobre Foreman, misóginas sobre Cameron e xenofóbicas sobre Chase. E diz que Cuddy é um travesti.

Os pagers de todos tocam simultaneamente.

– Há algo errado com o paciente.

– Ele ficou verde!

– Isso é ótimo. – comemora House – É um sintoma novo. Que doença deixa alguém com taxa de leucócitos alta, sem febre e verde?

– Sarcoidose.

– Linfoma.

– Lúpus.

– Encefalopatia idiopática primária de Braxton-Hicks.

– Mas nenhum dos sintomas se…

– Em 0,3% dos casos, a doença pode se manifestar assim caso o paciente tenha olhos azuis. Iniciem o tratamento com soro caseiro, AS infantil e corticóides.

– Mas não deveríamos testar…

– Não há tempo! Os rins dele irão parar de funcionar em 37 minutos e o fígado está morrendo!

O paciente piora.

– Alguém está mentindo. Mas como…

Nesse momento, Wilson faz um comentário inocente ou algum paciente do pronto-atendimento diz algo que finalmente leva House a perceber o que está acontecendo.

House sai da sala.

– House vai conversar com um paciente?!

– Ele faz isso em todo episódio, não sei por que sempre ficamos surpresos.

House entra no quarto do paciente e aponta a bengala para o pai da criança.

– Pela mancha azul nas pontas dos seus dedos, pelo lenço que tentou esconder no bolso e pela descoloração deixada por sua aliança, vejo que você é estivador. Você disse que era poeta. Por quê?

– Eu não achei que importasse.

– Seu idiota, você quase matou seu filho! Por sua causa e somente por sua causa tratamos o garoto com medicamentos perigosos e o submetemos a uma penca de exames arriscadíssimos. Ele está com catapora. Iniciem o tratamento.

O menino é curado e sai do hospital sem seqüela alguma. House é visto pensativo enquanto toca piano num ambiente escuro.”

Isto se chama “fórmula” e sua causa, para usar termos médicos, não tem nada de idiopática: se algo faz sucesso, para que mudar? Este é o problema de grande parte das séries de televisão e da maioria absoluta das continuações no Cinema: os realizadores, cientes de que algo no que criaram agradou os espectadores, querem manter o show na estrada, mas sem correrem qualquer risco – e simplesmente repetem o original ad nauseam, mudando uma ou outra coisa para dar a impressão de que algo novo está ocorrendo. (E é por esta razão que episódios que tentam fugir da rotina acabam ganhando prêmios e a admiração dos fãs, como Três Histórias, The Mistake e Euforia Partes 1 e 2.)

Uma das coisas que mais admiro em Lost, aliás, é justamente o fato de seus criadores se arriscarem tanto no que diz respeito à estrutura básica da série: quando os flashbacks começaram a se tornar repetitivos, eles introduziram o interessante conceito de flashforward (um recurso narrativo bem mais raro do que se imagina) – e antes que este também passasse a cansar, a série assumiu uma estrutura completamente nova através das viagens no tempo.

Também é por isso que temporadas menores como as de Dexter são mais eficientes como narrativa, rivalizando até mesmo com boa parte das produções para Cinema: em vez de contar uma historinha diferente a cada semana, Dexter é planejada como uma grande trama de 480 minutos de duração – e, assim, cada “episódio” simplesmente conta um pedaço deste “filme” de 8 horas.

Mas voltando a House: se a série não é um fracasso, isto se deve, claro, ao protagonista: House provavelmente aparecerá, no futuro, naquelas listas de “grandes personagens da televisão” – mas duvido muito que a série em si seja citada como um exemplo de boa televisão. E isto é uma pena, já que, confesso, também considero House (graças ao seu excelente intérprete Hugh Laurie) fascinante – e pretendo, inclusive, continuar a assistir a série, que representa um entretenimento agradável (embora jamais vá ter peso dramático; já chorei até pelo vilão Ben Linus de Lost, mas jamais me ocorreria chorar por qualquer dos personagens de House, mesmo em episódios dramáticos e eficientes como Euforia Parte 2).

Além dos episódios citados especialmente destacaria o ‘House’s Head’, penúltimo da quarta temporada, que inovou na fórmula e no timming.Resultado: ganhou Emmy de melhor roteiro !

Fica a pergunta, mais velha que eu: “Em time que está ganhado não se mexe?”

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Written by _ricardo

22/04/2009 às 14:47

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